terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Bárbara Heliodora

Sonia Sant'Anna, descendente da irmã de Bárbara Heliodora Bueno da Silveira, Iria Claudiana, escreveu o livro "Inconfidências Mineiras - Uma história privada da Inconfidência" onde relata a história de sua família e de onde retirei os fatos abaixo:
O pai de Bárbara Heliodora, Doutor José da Silveira e Souza, advogado,  morava na rua da Prata, em São João Del Rey, ao lado da Igreja do Pilar, em uma das melhores casas da vila. Era dono de lavras e lavouras de cana e muito se orgulhava de seu nascimento português. 
Já para Dona Maria Josefa da Cunha Bueno, mãe de Bárbara Heliodora, mais valia seu sangue Bueno, herdado dos avós bandeirantes. 
Seu antepassado Amador Bueno fora aclamado, pelos paulistas descendentes de espanhóis, rei de São Paulo, mas recusara a honraria por lealdade ao rei. Seu bisavô, seus tios avós e seus primos, entre os quais o célebre Anhanguera, haviam povoado Minas Gerais e Goiás.
A menos de duas léguas ( 1 légua = 6.600 mts.) de São João Del Rey ficava a vila de São José do Rio das Mortes, antes chamada Santo Antonio da Ponta do Morro, e atualmente de Tiradentes, onde os paulistas, comandados pelo bisavô de D.Josefa - Bartolomeu Bueno da Veiga, bisneto do Aclamado - haviam se curvado à vantagem numérica da tropa portuguesa. Portugueses e descendentes de portugueses formavam agora a maioria da população branca das comarcas de Vila Rica e Rio das Mortes. Os paulistas, descobridores daquelas minas, haviam sido empurrados de volta a sua terra ou ido para as minas de Goiás. Lá se haviam estabelecido o pai, os tios e os irmãos de Dona Josefa, no Arraial de Anta, onde ela havia conhecido o Doutor Silveira e com ele se casado.
Em 1776, José de Alvarenga Peixoto chegou São João Del Rey como o novo ouvidor da comarca do Rio das Mortes, tinha trinta e três anos, era elegante, poeta e ficou encantado com a beleza de Bárbara Heliodora e ela encantada com ele. Alvarenga possuia fortuna, herdada da família: casas no Rio de Janeiro, onde nasceu em 1744, a Fazenda Pinheiros, na localidade chamada Boa Vista, perto de São Gonçalo de Sapucaí, escravos e engenhos. Gostava de jogar e gastar.
Bárbara participava das conversas dos adultos e discutia política, negócios e declamava suas poesias o que deixava os senhores que frequentavam sua casa, encabulados e Avarenga encantado.
Em 1799, pouco antes de completar 20 anos, Bárbara deu à luz uma menina, Maria Ifigênia, filha do Dr.Alvarenga, mais um motivo para a maledicência.  Por não ouvir os cochichos e fofocas que faziam de sua filha o Dr.Silveira passou a ser chamado de "Doutor Surdo". Quando Maria Ifigênia tinha três anos o casamento de Bárbara Heliodora com Alvarenga Peixoto foi celebrado de forma discreta na capela particular dos Silveira pelo padre Carlos Correia de Melo Toledo, vigário de São José do Rio das Mortes, amigo de Alvarenga Peixoto.
Mas a vida financeira de Bárbara Heliodora não era fácil pois Alvarenga Peixoto estava sempre viajando e ao invés de dinheiro mandava-lhe poemas. Em 1785, nasceu o 2º filho de Bárbara, Tristão Antonio, sendo padrinho Rodrigues Macedo.  O 3º filho, João Eleutério, nasceu prematuro e foi batizado pelo Padre Toledo lá em São José. Nesta época, Alvarenga resolve entregar a administração da fazenda de Paraopeba ao irmão de Bárbara, José Inácio, que gostava de jogar  e colocou as contas ainda pior. Então Alvarenga sugeriu a Bárbara que se mudassem para São Gonçalo de Sapucai, perto da Fazenda Boa Vista, de onde poderia supervisionar melhor o andamento das novas lavras. Em outubro de 1788 Bárbara dá a luz mais um menino, João Damasceno que teve como padrinho Tomás Antonio Gonzaga e foi também batizado pelo padre Toledo. 
Em 20 de maio de 1789 Alvarenga Peixoto foi preso em casa. Alvarenga foi levado para o Rio deJaneiro, na fortaleza da Ilha das Cobras, juntamente com o Doutor Gonzaga, o alferes Tiradentes e outros. 
Em 1790, Bárbara, em São Gonçalo do Sapucaí é visitada pelos oficiais de Justiça que fizeram o sequestro de seus bens: mobiliário, pratarias, quadros e imagens de santos; linhos, jóias, tudo era listado e colocado em caixotes. Por fim levaram os escravos que seriam postos em leilão. Foi-lhe permitido somente o uso da casa. Se Alvarenga fosse condenado os bens sequestrados seriam confiscados definitivamente e Bárbara foi orientada a dizer que era casada em comunhão de bens para salvar a metade do que tinham.
O julgamento ocorreu em 18 de abril de 1792 e Alvarenga foi degredado para a Africa para o presídio de Ambaca, em Angola. Alvarenga faleceu logo que chegou a África vitimado por febres tropicais. Os descendentes foram sentenciados como Infames, assim como todos os bem foram confiscados. Bárbara Heliodora estava e pobre aos 35 anos.
Bárbara conseguiu de volta metade das terras e escravos da Boa Vista e tendo convencido Rodrigues de Macedo  de associar-se a ela, comprou a outra parte no leilão judicial.
Tristão Antonio e João Damasceno ficaram livres da sentença de infâmia que pesava sobre eles e foram admitidos na escola de cadetes. 
Em 1819, ao morrer, Bárbara Heliodora Bueno da Silveira foi enterrada ao pé do altar da Matriz de São Gonçalo de Sapucai. Durante uma reforma na igreja, o túmulo foi desfeito e seus restos não se sabe para onde foram transferidos. 
Em 1796, Maria Ifigênia ainda vivia, com 17 anos. Morreu pouco depois de uma queda de cavalo, solteira, sem deixar descendentes. 
Tristão Antonio também morreu jovem, solteiro e sem filhos. 
João Eleutério casou-se em 1810. Seus descendentes viviam no Triângulo Mineiro, Silvianópolis e em Ouro Fino. 
O filho mais novo mudou seu nome para João Evangelista, porque João Damasceno era o nome do irmão de Silvério dos Reis. Foi professor de latim na cidade de Campanha. Casou-se em 1818 na matriz do Pilar, em São João Del Rey. O único filho de João Evangelista morreu jovem, sem descendência e a filha Maria casou-se com o Sargento-Mor de Baependi, major Damaso Xavier de Castro.


BÁRBARA HELIODORA
(1859-1819)
Segundo Antonio Miranda:
Bárbara Heliodora Guilhermina da Silveira (São João del-Rei, c. 1758* — São Gonçalo do Sapucaí, 24 de maio de 1819) foi uma poetisa brasileira. Foram seus pais o Dr. José da Silveira e Sousa e D. Maria Josefa Bueno da Cunha. Para alguns estudiosos, era descendente de uma das famílias paulistas mais ilustres: a de Amador Bueno, o aclamado.
Alvarenga Peixoto e Bárbara Heliodora viveram juntos por algum tempo, e só se casaram, por portaria do bispo de Mariana, de 22 de dezembro de 1781, quando Maria Ifigênia, filha do casal, já contava três anos de idade. Desta união nasceram quatro filhos.
Para Aureliano Leite em "A Vida Heróica de Barbara Heliodora", "ela foi a estrela do norte que soube guiar a vida do marido, foi ela que lhe acalentou o seu sonho da inconfidência do Brasil ... quando ele, em certo instante, quis fraquejar, foi Barbara que o fez reaprumar-se na aventura patriótica. Disso e do mais que ela sofreu com alta dignidade, fez com que a posteridade lhe desse o tratamento de Heroína da Inconfidência".
A poetisa viveu entre a vila de Campanha da Princesa e a de São Gonçalo de Sapucaí. O capitão-de-mar e guerra Alberto C. Rocha, no artigo publicado (sob as iniciais A.C.R.) em 11 de outubro de 1931, em A Opinião de S. Gonçalo do Sapucaí, explica as razões da decretação da demência de Bárbara: com o propósito de se livrar da ameaça de seqüestro e execução, ela "vendeu", por escritura de 27 de julho de 1809, os bens que ainda lhe restavam ao seu filho José Eleutério de Alvarenga. Ora, tal manobra, ao que parece, prejudicava a Fazenda Real; para que fosse anulada a citada escritura, Heliodora foi declarada demente.
A produção literária de Bárbara Heliodora é bastante reduzida e controvertida. A ela são atribuídos os poemas Conselhos a meus filhos e um soneto dedicado a Maria Ifigênia, mas nem todos os estudiosos são unânimes nesta atribuição.
Fonte: Wikipedia
*algumas fontes citam o ano de 1959.
Casa em que viveu Bárbara Heliodora em São Gonçalo do Sapucaí, MG
SONETO
Amada filha, é já chegado o dia,
em que a luz da razão, qual tocha acesa,
vem conduzir a simples natureza:
- é hoje que o teu mundo principia.
A mão, que te gerou, teus passos guia;
despreza ofertas de uma vá beleza,
e sacrifica as honras e a riqueza
às santas leis do Filho de Maria.
Estampa na tua alma a Caridade,
que amar a Deus, amar aos semelhantes,
são eternos preceitos da Verdade.
Tudo o mais são idéias delirantes;
procura ser feliz na Eternidade,
que o mundo são brevíssimos instantes.
Nota: Domingos Carvalho da Silva, em alguns trabalhos, inclusive num artigo publicado em "O Estado de São Paulo" de 12.8.1961, sob o título "História de um Soneto", atribui sua autoria a Bárbara Heliodora.
CONSELHOS A SEUS FILHOS
Meninos, eu vou dictar
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.
Neste tormentoso mar
D'ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.
Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Ha bixinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.
Quem quer males evitar
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguem os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.
Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.
Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sabio piloto
Nas regras de calcular.
Se vos mandarem chamar
Pâra ver uma funcção,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.
Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!
Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.
O SONHO
Oh que sonho! Oh! que sonho eu tive n'esta,
Feliz, ditosa e socegada sésta!
Eu vi o Pão de Assucar levantar-se
E no meio das ondas transformar-se
Na figura de um indio o mais gentil,
Representando só todo o Brazil.
Pendente ao tiracol de branco arminho
Concavo dente de animal marinho
As preciosas armas lhe guardava;
Era thesoiro e juntamente aljava.
De pontas de diamante eram as setas,
As hásteas d'oiro, mas as pennas pretas;
Que o indio valeroso altivo e forte
Não manda seta, em que não mande a morte,
Zona de pennas de vistosas côres
Guarnecida de barbaros lavores,
De folhetas e perolas pendentes,
Finos chrystaes, topazios transparentes,
Em recamadas pelles de sahiras,
Rubins, e diamantes e saphiras,
Em campo de esmeralda escurecia
A linda estrella, que nos traz o dia.
No cocar... oh que assombro! oh que riqueza!
Vi tudo quanto póde a natureza.
No peito em grandes letras de diamante
O nome da augustissima imperante.
De inteiriço coral novo instrumento
As mãos lhe occupa, em quanto ao doce accento
Das saudosas palhetas, que afinava,
Pindaro americano assim cantava.
Sou vassallo e sou leal,
Como tal,
Fiel constante,
Sirvo á glória da imperante,
Sirvo á grandeza real.
Aos elysios descerei
Fiel sempre a Portugal,
Ao famoso vice-rei,
Ao illustre general,
Ás bandeiras, que jurei,
Insultando o fado e a sorte,
E a fortuna desigual,
Qu'a quem morrer sabe, a morte
Nem é morte, nem é mal.
Do livro: Florilégio da Poesia Brasileira, de Varnhagen, 1946 ("fac-símile do frontespício da ed. princeps do "Florilégio da Poesia Brasileira", de 1850),

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